Da guerra comercial e o Brasil

Artigo de Dr. Štefan Bogdan Barenboim Šalej, Salej no comment – São Paulo

Estamos no meio de uma guerra comercial que se espalha pelo mundo e chegou nestes dias com toda a artilharia disparando seus tiros para Brasil. E um dos foguetes disparados atingiu as asas do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, tão celebrado ainda na semana passada. Aliás, a pergunta é se o tiro foi fatal e o acordo morreu ou só atingiu o voo inicial do avião chamado acordo.

O fato é que os europeus, que neste momento enfrentam um calor infernal nas suas praias e na política, com o novo primeiro-ministro britânico, a saída da Angela Merkel do governo da Alemanha, a mudança da equipe da União Europeia e do Banco Central, não têm muito tato ao tratar com latinoamericanos em geral e em especial com o Brasil. A insistência em que o acordo, ora em exame jurídico e ainda não assinado pelos presidentes dos países e pela Comissão da UE, só será validado se o Brasil cumprir o acordo climático de Paris, deu brecha para o Brasil procurar, sob pressão, outras alternativas. Chegou-se a um acordo possível, que está longe longe de ser excelente. O Brasil cedeu muito para fazer o acordo. E aí, chamá-lo fora do acordo para cumprir o que está cumprindo, ou mais do que o acordado, foi esticar a corda de forma inaceitável.

O episódio com o chanceler da França, não recebido pelo presidente Bolsonaro que foi cortar ostensivamente o cabelo após dizer que não tinha agenda, foi sinal claro, mas não lido pelos europeus, de que o Brasil não vai se deixar amedrontar com ameaças francesas sobre a Amazônia e o meio ambiente. À medida que a pressão europeia foi crescendo, especialmente a da Alemanha, com seu Partido Verde, que hoje tem muita força no Parlamento Europeu, também a resposta brasileira foi crescendo de tom. A ação agressiva europeia provocou a reação agressiva brasileira.

Mas aí os europeus avaliaram muito mal as opções que o Brasil tem. Na mesma semana da visita do chanceler francês, veio ao Brasil o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross. Os americanos, que veem no acordo entre o Mercosul e a UE uma real ameaça aos seus negócios na região, aproveitaram a janela de oportunidade para oferecer uma real possibilidade de fazer acordo entre o Mercosul e os Estados Unidos. Foram perfeitos: aceitaram Eduardo Bolsonaro como embaixador nos EUA, cumpriram a promessa de abrir as portas da OTAN (Organização para o Tratado do Atlântico Norte) para o Brasil, disseram que o acordo com a UE prejudica o acordo com os Estados Unidos e mais algumas coisas que não sabemos. Trump precisa de um acordo comercial novo e bom antes das eleições e Bolsonaro, que não aguenta ataques dos europeus, amigo do Trump e de sua política, deu essa chance. O acordo com os Estados Unidos, nosso maior concorrente no agronegócio, será menos estressante nas áreas de meio ambiente e agrícola do que o acordo com os europeus. E certamente não vai ter oposição da Argentina, onde, se Macri não for eleito, o acordo com os europeus também dificilmente passará a ser aceito pelo novo governo. Se for reeleito, os EUA têm força para impor a sua vontade a uma Argentina enfraquecida.

O acordo com a UE entra em banho-maria, o governo brasileiro não tem nenhuma pressa de ratificar, e o acordo com os EUA entra em fast track (linha rápida) para ser negociado. Se os europeus baixarem as exigências e entenderem que governo Bolsonaro é o que é, ainda pode haver acordo. Senão, haverá acordo só com os EUA, talvez com o Japão, Coreia do Sul, Canadá e Cefta (iniciais em inglês de Acordo Centro-europeu de Livre Comércio). O que, diga-se de passagem, já é bastante para Brasil.

Jogou-se o jogo dos profissionais.

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