Do acordo meio cheio, meio vazio

Artigo de Dr. Štefan Bogdan Barenboim Šalej, Salej no comment – São Paulo

Está difícil de distinguir, nas recentes discussões sobre o papel do Brasil no mundo, o joio do trigo. A centralização do debate na nomeação do novo embaixador do país nos Estados Unidos nos afasta de dois importantes atos da política externa brasileira, construídos ao longo de décadas, mas concluídos agora, que são a nossa adesão à OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e o acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Os dois feitos terão um papel estruturante na economia e na sociedade brasileiras nas próximas décadas, que está sendo totalmente desprezado e subestimado pela sociedade econômica brasileira, e aí incluída a sociedade civil e política.

A adesão à OCDE vai requerer alguns ajustes fundamentais tanto do estado brasileiro como das empresas, independentemente de que já estamos cumprindo mais de 75% de todos os requisitos que harmonizam as ações e políticas públicas dos 45 estados membros da organização. No entanto, o perigo mora nos detalhes do restante. Não só teremos que adaptar normas e legislação, em especial na área de empresas estatais, combate à corrupção, transparência de contas públicas, entre outros, mas também o governo terá que adaptar suas políticas, por exemplo na área social e de educação, a serem monitoradas e analisadas constantemente por um organismo internacional. E não me consta que no debate sobre esses estudos e análises poderemos, como é a tradição brasileira, contestar envoltos na bandeira nacional, dizendo que os gringos querem prejudicar o Brasil. O jogo vai exigir um comportamento analítico e de adoção de políticas públicas bem diferente do que se jogava até então.

No caso do acordo com a União Europeia, a situação é diferente. Primeiro o acordo é fundamental para os europeus. A Europa vive do comércio internacional mais do que qualquer bloco ou país do mundo. Atualmente, não tem mais as colônias (com exceção dos territórios holandeses, franceses e britânicos na América Latina) onde desovava sua produção e das quais recebia matérias-primas a preços aviltados. Os chineses estão pressionando a entrada na Europa com sua Rota da Seda, conquistaram a África, avançaram tecnologicamente e fizeram alianças na Ásia que diminuem o poder dos europeus.

A UE não consegue fechar um acordo com os Estados Unidos nem acordos com países como o Japão, Vietnã e Canadá, que não são comparáveis com as vantagens que oferece o acordo com o Mercosul. Este acordo apresenta um mercado de 68 bilhões de euros por ano para 60 mil empresas europeias. As exportações para o Mercosul geram 855 mil empregos diretos na Europa e mais 436 mil empregos no Brasil. As empresas europeias deixarão de pagar anualmente 4,5 bilhões de euros em taxas e tarifas, aumentando seus lucros conforme reza o acordo.

Mas o outro lado é que conta: as empresas do Mercosul terão portas abertas nos mercados europeus, nos quais não se sabe se está incluída a Grã-Bretanha. E aí vem a questão básica: quanto somos competitivos e em que produtos para vender mais aos europeus? Enquanto eles, que têm investido no Brasil mais de 300 bilhões de dólares, estão se preparando para invadir o mercado brasileiro, o que está sendo feito do nosso lado, ninguém sabe.

Para sermos competitivos e aproveitarmos bem o acordo teremos que mudar o nosso modelo, cuja bandeira é o Custo Brasil, para o de um Brasil competitivo. E este retrofit da nossa economia vai exigir em primeiro lugar um projeto e recursos. Neste momento, nem o setor privado tem um roadmap para um melhor aproveitamento do acordo e nem o governo tem um projeto, a não ser passos políticos, para a mudança que nos espera. Os europeus estão trabalhando a mil por hora para levar vantagem e nós ainda estamos comemorando a primeira fase da conclusão do acordo.

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