Simplificar a vida das pessoas foi o começo de tudo

Quando o Poupatempo foi criado, em 1996, a ideia era simplificar a vida das pessoas. A burocratização, um dos grandes problemas no Brasil, além de custar muito, sempre deu margem à corrupção, então era preciso um meio de combater tudo isso. O Poupatempo trouxe facilidades aos cidadãos, por exemplo, em apenas um dia, eles agora conseguiam tirar uma carteira de identidade, que anteriormente levava 60 dias. O que levou o Poupatempo a ser considerado o melhor serviço público de São Paulo, servindo de modelo para outros países, entre os quais Portugal, que após uma visita para ver seu funcionamento, criou um similar do outro lado do Atlântico, a Loja do Cidadão. Vinte e três anos depois, o Poupatempo continua funcionando bem, para orgulho de um de seus idealizadores, Daniel Annenberg, convidado do Slobraz Talk para falar sobre: “Gestão pública: da idealização ao sucesso do Poupatempo”.

Formado em administração pública e em ciências sociais, Daniel tem 30 anos de experiência na gestão pública do município e do estado. Durante 10 anos coordenou o Poupatempo e em 2011, como presidente do Detran, recebeu a missão de modernizar e estruturar a instituição que durante 70 anos foi administrada por policiais. Assim, ele levou o padrão Poupatempo para o Detran, que em cinco anos passou de dois para 28 serviços eletrônicos oferecidos. A digitalização diminui a corrupção e pela primeira vez foi instituído um código de ética lá. Além disso, outros projetos visavam prestar um serviço ao cidadão, entre os quais um aviso lembrando quando o motorista precisava renovar a sua carteira de habilitação. Para Daniel, esse deve ser o papel dos órgãos públicos, “não só fiscalizar, controlar, mas principalmente se antecipar ao cidadão e ajudá-lo a resolver suas questões com o Governo, de forma rápida, fácil, simples”.

Em 2016, Daniel Annenberg elegeu-se vereador por São Paulo com 39 mil votos, no entanto, foi convidado pelo então prefeito João Dória para coordenar a nova Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. No período, que durou até o final de 2019, Daniel conseguiu triplicar os pontos de wi-fi livre pela cidade, digitalizou 99% dos processos da prefeitura, implantou o Descomplica – uma versão municipal do Poupatempo –, e lançou o Empreenda Fácil, para aumentar o empreendedorismo na cidade, diminuindo, por exemplo, o tempo de abertura de uma empresa de 100 para quatro dias, totalmente online. “Desburocratizar é bom para todo mundo, com exceção talvez de meia dúzia de pessoas que ainda ganha em cima dessas dificuldades. A burocracia custa caro para as empresas, o que eleva o custo Brasil, e por isso deve ser combatida, não só para simplificar, mas para baratear custos que, consequentemente, vão atrair mais empreendimentos para o país”, ressalta Annenberg.

Ao longo de sua trajetória, Daniel sempre teve a atenção voltada às soluções para o melhor atendimento ao cidadão, que resultassem em mais agilidade, rapidez, desburocratização e igualdade. “Todo mundo sendo atendido igualmente, sem privilégios”, ele reforça. E o principal meio para melhorar isso é a tecnologia. Atualmente a tecnologia pode ser utilizada para qualquer coisa, mas segundo Annenberg, “ela tem de ser um meio para a cidade ser mais humana; a cidade deve ser melhor para todos, essa é minha preocupação”.
Outra área de atuação de Daniel é a inclusão digital. Para ele, o futuro é digital, com cada vez mais serviços eletrônicos, mas cujo acesso ainda é restrito a uma parcela pequena da população, em São Paulo. “Durante esta pandemia, a inclusão digital tornou-se inclusão social”, diz. A falta de acesso à internet, no caso de alunos da rede pública de ensino, não permitiu que o plano de aulas online tivesse sucesso. Segundo ele, o problema de inclusão digital envolve uma série de complicações, desde infraestrutura até o aculturamento, pois é necessário que as pessoas entendam como funcionam os serviços eletrônicos. Pequenas ações estão sendo realizadas, mas é preciso muito mais para alcançar toda a população.
Daniel Annenberg diz-se um otimista em relação ao futuro. No entanto, acredita que só o poder público não é capaz de resolver tudo. É preciso haver uma parceria com a iniciativa privada, com universidades e startups para as coisas acontecerem. Da mesma forma, é preciso o envolvimento da sociedade. “Para chegar a uma sociedade mais justa é preciso que haja também uma sociedade que não só vote, mas cobre os seus eleitos. O problema não são só os políticos, mas todos nós. Não adianta a gente reclamar se a gente não está lá. A sociedade tem que participar”, concluiu.

O encontro online teve a mediação do presidente da Câmara de Comércio Eslovênia-Brasil, Matjaž Cokan, e contou com as participações do embaixador da Eslovênia no Brasil, Gorazd Renčelj; do vice-presidente do Clube Esloveno Boris Krajnc Alves e da primeira embaixadora do Brasil na Eslovênia, Deborah Vainer Barenboim-Šalej. Agradecemos a todos os participantes e especialmente ao nosso convidado, Daniel Annenberg.

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