Uma vida com tempero esloveno

Valdeir R. Vidrik pertence à segunda geração da família nascida no Brasil. Seu avô, assim como outros imigrantes eslovenos, chegou aqui no final do século 19 em busca de uma condição de vida melhor e decidiu fixar-se no país. As raízes eslovenas, porém, profundas, permaneceram e arraigaram-se ao longo dos anos.

Sem nunca deixar de lado o sentimento de gratidão ao Brasil — que acolheu os familiares de origem camponesa em tempos difíceis, e, portanto, tem um lugar no coração deles —, Valdeir diz não esquecer essas raízes, talvez pela força que elas têm: “Os eslovenos viveram mais de mil anos sem ter um país e conservaram, durante esse tempo, a língua; a cultura; a atitude e a gastronomia, que embora um pouco miscigenada, têm suas especificidades. Então é dessa raiz — que manteve os eslovenos até 1991, quando finalmente conquistaram o seu próprio país — que vem essa cultura que nos une, esse pensamento”.  

A Eslovênia está presente em tudo na vida da família Vidrik: no estudo da língua, que já chegou aos seus netos; na música, principalmente as típicas, que ele escuta nas rádios eslovenas pelo computador e, sobretudo, na gastronomia. Desde o chucrute até a potica — pão doce enrolado e recheado de nozes, servida nas festividades eslovenas —, os pratos eslovenos são preparados em sua casa e consumidos com frequência. “O chucrute é uma palavra da língua portuguesa, é um repolho fermentado, cujo preparo é tradicional na Eslovênia devido à safra da verdura ter um curto período de duração lá”, diz.  Por ter uma cozinha industrial, ele é quem faz a conserva que depois será distribuída para toda a família. 

A charcutaria é outra tradição passada ao longo das gerações. Seu pai começou fazendo os frios no Brasil e ensinou Valdeir, que por sua vez, transmitiu o aprendizado ao seu filho Klaus N. Vidrik. Pai e filho, aliás, escreveram em parceria A arte de fazer embutidos e defumados: a tradição de uma família eslovena. Um livro pensado para que qualquer pessoa fosse capaz de produzir linguiças e outros embutidos, mesmo em ambientes pequenos e com utensílios do dia a dia. As receitas são detalhadas e envolvem desde a seleção de carnes, moagem, condimentação e enchimento até processos de defumação e cura. Tudo explicado de forma objetiva e didática — afinal pai e filho são professores, de gestão em inovação e de gastronomia, respectivamente —, além de mais de 100 ilustrações. A obra apresenta ainda muito da cultura eslovena, relacionando pratos às festividades em que são servidos. As responsáveis pela produção desses pratos são a esposa Alais e a filha Ingrid, que também atua na área gastronômica e tem uma empresa especializada em doces.

No entanto, mais do que um costume, a charcutaria é uma paixão para Valdeir. Grande estudioso do assunto, seu campo de experiência mais profunda de contato é a própria Eslovênia, onde vive parte da sua família, de origem camponesa, e onde é possível acompanhar todo o processo, do abatimento do porco criado nas montanhas até o produto final. Tudo isso, paixão, conhecimento e prática, pode ser visto na fabricação dos embutidos, principalmente dos cozidos e defumados, que são sua especialidade. 

Desde sua aposentadoria como pró-reitor de inovação em um centro universitário, no ano passado, Valdeir tem dedicado mais tempo ao seu negócio de embutidos, a Charcutaria Eslava. Os carros-chefes da empresa são as linguiças, entre as quais, a tradicional kranjska klobasa, que por possuir selo de denominação de origem da Eslovênia tem seu nome protegido, sendo chamada aqui de linguiça eslovena. Entretanto, o processo de produção, assim como a receita, os pesos e as medidas são os mesmos da original, ou seja, uma ótima oportunidade para quem quer degustar a iguaria típica eslovena em território brasileiro.

Além da linguiça eslovena, Vidrik produz outros tipos de frios eslovenos, especialmente, os frescos, cozidos e defumados. Situada em Bauru, a Charcutaria Eslava atende somente online, pelo Instagram e pelo Facebook, mas entrega também para clientes de outras regiões, por via aérea. A produção é por demanda, e da mesma forma, é possível fazer encomendas específicas, como por exemplo, as linguiças produzidas a partir de sangue, que por serem mais fortes, são mais adequadas para se consumir no inverno.

Em 2016, Valdeir recebeu um diploma de reconhecimento e agradecimento pelo seu trabalho, tanto na produção quanto na divulgação da cultura gastronômica eslovena no Brasil, concedido pela Embaixada da Eslovênia.

O valor das associações eslovenas

A importância das associações eslovenas, aliás, é algo de mão dupla para Vidrik. Por ser um país territorialmente pequeno, a Eslovênia, dessa forma, consegue ampliar sua disposição econômica, cultural e tecnológica além dos seus limites geográficos, por meio dos seus concidadãos espalhados pelo mundo. Por outro lado, mais do que nunca, o segredo da evolução e de permanência no mercado é trabalhar em rede. A Slobraz e a Slovenian Global Business Network (SGBN), por exemplo, podem beneficiar toda a comunidade, pois são pontos em que se é possível aumentar a rede de negócios, favorecida por uma questão ancestral, étnica. Já a União dos Eslovenos do Brasil fomenta o lado cultural. “Isso propicia a todos oportunidades não só de viver o país que está lá na Europa, mas de criar uma rede de relacionamentos com direção à Europa”, diz.

Por fim, Valdeir quis prestar sua homenagem às pessoas que se encarregam dessas associações para aumentar a rede de relacionamentos. “Eles merecem toda a gratidão e reconhecimento, pois os esforços deles são louváveis, por dedicarem horas como voluntários e serem desapegados com o único intuito de que a cultura eslovena permaneça”, acrescentou.

Para adquirir o livro A arte de fazer embutidos e defumados: a tradição de uma família eslovena, acesse o link da editora Canal 6 de Bauru.

Para entrar em contato com a Charcutaria Eslava, basta acessar as páginas da empresa no Facebook ou no Instagram, ou pelo WhatsApp (14) 3500-9828.

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